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Vida saudável

Caminhadas intensas fazem bem para um cérebro que envelhece.

Pessoas mais velhas com transtorno cognitivo leve mostraram melhoria no fluxo sanguíneo ao cérebro e na memória após um programa de um ano de exercícios aeróbicos.

25/08/2021 16h36
Por: Vitor Blemer
Fonte: Estadão
Idosos com comprometimento cognitivo leve mostraram melhorias no fluxo sanguíneo cerebral e na memória após um programa de exercícios aeróbicos de um ano. Foto: Victor Moriyama/The New York Times
Idosos com comprometimento cognitivo leve mostraram melhorias no fluxo sanguíneo cerebral e na memória após um programa de exercícios aeróbicos de um ano. Foto: Victor Moriyama/The New York Times

Caminhar intensamente melhora a saúde do cérebro e o raciocínio em pessoas mais velhas com problemas de memória, de acordo com novo um estudo, realizado ao longo de um ano, a respeito da relação entre transtorno cognitivo leve e exercícios físicos. No estudo, pessoas de meia-idade e mais velhas com sinais preliminares de perda de memória melhoraram a capacidade cognitiva após começar a caminhar com frequência. Exercícios regulares também aumentaram o saudável fluxo sanguíneo ao cérebro. As mudanças em seus cérebros e mentes foram sutis, mas importantes, conclui o estudo, e poderiam ter implicações não somente em pessoas com problemas graves de memória, mas para qualquer um de nós cujas memórias estejam começando a se dissipar com a idade.

À medida que envelhecemos, a maioria de nós percebe que a capacidade de lembrar das coisas e raciocinar vai enfraquecendo um pouco. Isso é considerado normal, embora irritante. Se a perda de memória se intensifica, porém, pode se tornar um transtorno cognitivo leve, condição médica na qual a perda de capacidade mental se torna óbvia o suficiente para causar preocupação a você a às pessoas do seu entorno. Transtorno cognitivo leve não é demência, mas pessoas que sofrem dessa condição têm risco maior de desenvolver Alzheimer no futuro.

Cientistas ainda não determinaram as causas fundamentais do transtorno cognitivo leve, mas há alguma evidência de que alterações no fluxo sanguíneo ao cérebro podem contribuir. Sangue carrega oxigênio e nutrientes às células do cérebro e, se esse fluxo perde força, isso pode prejudicar a vitalidade dos neurônios.

Infelizmente, muita gente experimenta declínios no fluxo sanguíneo ao cérebro conforme envelhece, quando as artérias enrijecem e os corações enfraquecem.

Mas a boa notícia é que exercícios podem melhorar o fluxo sanguíneo ao cérebro, mesmo quando os praticantes não estão se movendo. Em um estudo neurológico de 2013, cérebros de homens mais velhos fisicamente ativos mostraram uma saturação sanguínea de oxigênio muito melhor do que homens sedentários, mesmo quando todos estavam descansando tranquilamente. O maior fluxo sanguíneo ao cérebro entre pessoas que se exercitam também é associado a melhores resultados em testes de memória e raciocínio do que entre pessoas sedentárias.

Mas esses estudos geralmente tiveram como foco pessoas cujos cérebros e cognição eram relativamente normais. Os exercícios fortaleceram neles o que já funcionava razoavelmente bem. Sabemos muitos menos a respeito da possibilidade de a atividade física beneficiar, de maneira similar, o fluxo sanguíneo, o cérebro e o raciocínio das pessoas que estão começando a experimentar perdas de memória mais graves.

Então, para o estudo, publicado no Journal of Alzheimer’s Disease, pesquisadores do Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas, em Dallas, e de outras instituições pediram que um grupo de 70 homens e mulheres sedentários com idades a partir de 55 anos e diagnosticados com transtorno cognitivo leve começasse a se movimentar mais.

Primeiramente, os voluntários foram levados ao laboratório, onde foram avaliadas sua condição de saúde, função cognitiva e capacidade aeróbica. Depois, usando avançados ultrasons e outras técnicas, os cientistas mediram a rigidez de suas artérias carótidas, que levam o sangue ao cérebro, e a quantidade de sangue fluindo aos seus cérebros.

Finalmente, os voluntários foram divididos em dois grupos. Um deles iniciou um programa de alongamentos suaves e exercícios tonificantes, para servir como grupo ativo de controle. Os outros começaram realizar exercícios aeróbicos, principalmente andando em esteiras no laboratório, e depois, passadas algumas semanas, caminhando ao ar livre, por conta própria. Os cientistas pediram a esses voluntários que realizassem exercícios vigorosos, para que seus batimentos cardíacos e ritmos respiratórios se elevassem perceptivelmente (eles podiam nadar, andar de bicicleta ou fazer dança de salão se preferissem, mas quase todos caminharam). O grupo de controle manteve os batimentos cardíacos baixos.

Todos os voluntários em ambos os grupos se exercitaram três vezes por semana, a princípio, por cerca de meia hora e sob supervisão. Posteriormente, os voluntários acrescentaram sessões de exercícios por conta própria, até passar a se exercitar, até seis meses depois, cerca de cinco vezes por semana na maioria das semanas. Esse programa continuou por um ano, no total. Cerca de 20 voluntários desistiram no período, a maioria no grupo que caminhou.

Então, os voluntários voltaram ao laboratório para repetir os mesmos testes que realizaram no início do estudo, e os pesquisadores compararam os resultados. Para nenhuma surpresa, o grupo que caminhou estava mais bem condicionado fisicamente, com maior capacidade aeróbica, enquanto a resistência física do grupo que se alongou não se alterou. O grupo dos exercícios aeróbicos também mostrou muito menos rigidez em suas artérias carótidas e, como consequência, um fluxo sanguíneo maior ao cérebro.

Talvez mais importante, depois do estudo, eles também tiveram melhor desempenho do que o grupo que se alongou e se tonificou em alguns testes de pensamento executivo, que envolve capacidade de planejamento e tomada de decisões. Essas habilidades tendem a ser as que decaem primeiro em casos de demência.

Curiosamente, porém, ambos os grupos tiveram resultados pouco melhores na maioria dos testes de memória raciocínio— e aproximadamente à mesma medida. Na verdade, levantar-se e começar a se mover de qualquer maneira — e talvez também começar a interagir socialmente com pessoas no laboratório — pareceu ter intensificado capacidades mentais e ajudado a brecar declínios de cognição.

Ainda assim, os pesquisadores acreditam que, durante um período longo, caminhar vigorosamente poderia resultar em ganhos cognitivos maiores e menor declínio de memória do que suaves alongamentos, afirma Rong Zhang, professor de neurologia do Centro Médico da UT Southwestern, que coordenou o novo estudo.

“Provavelmente leva mais tempo” do que um ano para o fluxo sanguíneo melhorado se traduzir em melhor cognição, afirma ele. Ele e outros pesquisadores estão planejando estudos maiores e mais duradouros para testar essa ideia, afirma ele. Eles esperam também investigar a maneira como mais — ou menos — sessões de exercício a cada semana podem beneficiar o cérebro, e se haverá maneiras de motivar mais voluntários a permanecer em um programa de exercícios.

Por agora, porém, ele acredita que as atuais descobertas servem como um lembrete útil de que se exercitar muda mentes. “Estacione o carro mais longe” quando fizer compras ou ir trabalhar, afirma ele. “Use as escadas” e tente aumentar sua frequência cardíaca quando se exercita. Fazer isso, afirma ele, pode ajudar a proteger por toda a vida sua capacidade de pensamento e memória. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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