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Com as próprias mãos

Casa de barro feita com as ‘próprias mãos’ vira sonho realizado de família em SC.

Com baixo impacto ambiental, bioconstrução na Mata Atlântica entre Joinville e Garuva ganhou vida e marca primeiro passo para fomentar o turismo rural e ecológico na região.

MINUTO AMBIENTAL.

MINUTO AMBIENTAL.O meio ambiente esta presente em tudo o que tem a ver com a vida de um ser ou de um grupo de seres vivos. Leandro Madeira Canuto - Analista Ambiental do Norte Catarinense - Bewegen Ambiental - 47 98473-0832.

24/08/2021 16h42Atualizado há 1 mês
Por: Vitor Blemer
Fonte: ND Mais
Construir a própria casa era sonho de família joinvilense – Foto: Juliane Guerreiro/ND
Construir a própria casa era sonho de família joinvilense – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Enquanto o carro avança em direção ao interior de Joinville, no Norte de Santa Catarina, os prédios vão dando espaço às árvores, cachoeiras e casas tradicionais da região rural.

O caminho é longo e ultrapassa o limite com Garuva, até o ponto em que uma estrada recém-aberta dá espaço a uma estrutura que harmoniza com a natureza ao redor: uma casa de barro.

A estrutura está sendo erguida a oito mãos, com muito esforço e carinho, por uma família que já cultivava há anos o sonho de construir o próprio lugar para morar.

Ligados à permacultura desde os tempos de faculdade, a bióloga Patrícia da Silva e o turismólogo Luiz Carlos Casas Filho só esperavam uma boa oportunidade para tirar os planos do papel.

E ela chegou em 2019. Foi quando, após o nascimento dos dois filhos e anos pagando aluguel, eles conseguiram comprar um terreno na Estrada Quiriri, região rural que começa em Joinville e segue até Garuva, rodeada pela Mata Atlântica. “Voltou todo aquele sonho que estava em standby de fazer a nossa casa com as próprias mãos”, conta Patrícia.

Construir a própria casa era sonho de família joinvilense – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Após muito estudo sobre a bioconstrução, como é chamada a técnica de construir com materiais que tenham baixo impacto ambiental, o casal decidiu fazer um pequeno depósito para treinar a prática e guardar os materiais usados para a casa definitiva. O “problema” é que o projeto deu tão certo que a família acabou mudando de ideia.

“Ia servir como depósito, mas a coisa foi ficando tão bonita, grande e robusta, que a gente falou ‘não dá pra guardar só material, vamos fazer um mezanino para poder dormir e ficar mais tempo’. Ela está tão linda que dá vontade de abraçar e não sair mais de dentro, mudou de função”, se orgulha a bióloga.

O processo de testar técnicas continua, assim como os planos da família em relação à bioconstrução. Além da atual estrutura, eles pretendem construir a casa onde vão morar também nesse método, além de pequenos chalés para fomentar o turismo rural e ecológico na região.

O que era pra ser apenas um depósito acabou conquistando o coração da família – Foto: Juliane Guerreiro/ND

O que era pra ser apenas um depósito acabou conquistando o coração da família – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Como é construída uma casa de barro

Há diversas técnicas utilizadas para fazer uma casa de barro, como adobe, hiperadobe e superadobe. Todas consistem em modelar tijolos de barro, mas têm diferenças entre si.

Na casa construída pela família joinvilense, por exemplo, usa-se o hiperadobe, técnica em que o barro é envolto em sacos de raschel, feitos em tramas de polietileno.

“Nós nos encantamos com o hiperadobe pela facilidade e a questão do custo. O rolo de raschel custou R$ 500, o barro foi tirado da terraplanagem da estrada e a gente foi trazendo com o carrinho de mão. O único custo seria o da mão de obra”, explica Luiz.

Apesar dos estudos, a família não tinha experiência nesse tipo de construção e, por isso, todo mundo aprendeu junto, pais e filhos, sobre o que dá certo na prática. “Testamos a questão da umidade, de fazer decoração, do uso de garrafa para luminosidade, de que forma a gente faria tudo”, conta o turismólogo.

Garrafas foram usadas para aproveitar a luminosidade externa dentro da casa – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Garrafas foram usadas para aproveitar a luminosidade externa dentro da casa – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Um dos desafios foi lidar com a falta de padrão dos materiais que, por serem naturais, não têm toda a retidão dos tradicionais. “Tive que desconstruir: a parede pode ser curva, pode não ter canto, pode ficar torta. É o mais orgânico possível com tudo que a natureza nos dá”, destaca Luiz.

Ele destaca, porém, que é possível ter um nível de acabamento perfeito para projetos de alto padrão, caso esse seja o objetivo. “Dá pra fazer algo entre o que é convencional e o natural, que não pode ser ruim para morar. É possível não ser tão ‘hippie’ e fazer um ótimo acabamento no limite entre o ‘hippie demais’ e o ‘luxo demais’”, afirma.

Segundo a família, os gastos até agora foram apenas com os sacos de raschel, ferramentas e os custos relativos ao transporte e à alimentação no local. “Todo o recurso a gente tirou daqui: as pedras do fundamento foram do rio, o bairro foi da estrada, os eucaliptos do terreno”, diz Luiz.

Além disso, eles reaproveitaram janelas e outras madeiras antigas, que já tinham guardadas em casa, sempre pensando em usá-las na residência própria.

Por fim, o reboco é feito com barro misturado em água - Juliane Guerreiro/ND

Primeiro passo é peneirar o barro para evitar partículas maiores - Juliane Guerreiro/ND

Depois, o barro é colocado nos sacos de raschel com a ajuda de uma ferramenta improvisada pela família - Juliane Guerreiro/ND

É preciso ir ajustando a malha conforme o barro vai sendo colocado - Juliane Guerreiro/ND

Com o saco completo de barro, o próximo passo é modelar com a ajuda de outra ferramenta - Juliane Guerreiro/ND

Além da economia financeira, o casal destaca o baixo impacto para o meio ambiente. “O que eu gosto de frisar é a questão do gasto de energia: a gente utiliza o máximo que o ambiente nos dá, não precisa trazer e levar material de fora”, salienta Luiz.

Em uma casa como essa, as instalações elétricas e hidráulicas são feitas como no modo convencional, com a vantagem de que, para novas instalações, basta quebrar o barro no local necessário.

A família também pretende usar um telhado verde e sistemas ecológicos em relação ao saneamento,para manter o baixo impacto ambiental em toda a estrutura, característica das bioconstruções.

Além da economia e da sustentabilidade, outro benefício da técnica é conforto térmico, uma vez que o imóvel mantém uma temperatura estável tanto em dias quentes como nos frios. “Fica sempre entre 17 e 23°C. É como se estivesse morando dentro de um filtro de barro”, brinca Luiz.

Bioconstruções usam materiais naturais, como o barro – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Bioconstruções usam materiais naturais, como o barro – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Esforço, aprendizado e carinho entre família na construção

A casa de barro começou a ser construída pouco antes da pandemia, o que impediu que familiares e amigos ajudassem no projeto. Porém, o contexto possibilitou que a família conseguisse passar mais tempo junta na obra, além de se manter protegida durante a quarentena.

A união da família, aliás, é uma das principais vantagens de todo o processo de construção. “A gente conseguiu trazer a família pra cá, já se isolando e construindo outro tipo de conhecimento. As crianças estão vivenciando um aprendizado, o que é o mais gratificante”, destaca Luiz.

 Casa traz as marcas da união em família – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Casa traz as marcas da união em família – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Patrícia também acredita que a experiência deve marcar a vida dos filhos, hoje com 15 e 12 anos. “É um aprendizado que eles não têm na escola. São vários aprendizados pequenininhos, além da nossa interação, o olho no olho, a conversa, a risada e o puxão de orelha quando precisa. A mão e a energia de cada um estão nessa casa”, comemora.

A opinião também é compartilhada pelos filhos. Caio da Silva Casas, o mais velho, diz que estar em família é uma das melhores partes do projeto. “Estamos construindo nós quatro, vendo isso crescer e se desenvolver juntos, é o mais gratificante”. 

O irmão mais novo, Igor da Silva Casas, de 12, concorda, e ainda acrescenta a “guerra” de lama e o banho no rio que corre atrás de casa como outras maravilhas da experiência.

Igor, assim como o restante da família, aprova a experiência – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Igor, assim como o restante da família, aprova a experiência – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Bioconstruções têm avançado no Brasil

Se as construções em barro e outros materiais naturais ainda parecem inimagináveis para quem está acostumado aos métodos tradicionais, a verdade é que o uso dessa técnica tem crescido no Brasil, principalmente nos estados do Sudeste do país, com destaque para Minas Gerais.

O engenheiro civil Bruno Liguori Sia, especializado em bioconstrução, explica que já há, inclusive, normas técnicas sobre o tema. “Está avançando de maneira moderada, quase rápida, com normas já aprovadas na ABNT sobre uso de bambu e normas sobre tijolo de barro em aprovação”, fala.

Apesar disso, ainda há desafios para que o método se popularize. “É difícil encontrar curso superior que trate do assunto e é comum associarem esse tipo de construção a menos profissionalismo. A falta de informação também é uma grande barreira porque, geralmente, a técnica está associada de forma pejorativa”, afirma.

Bioconstrução em Guaraciaba, no Oeste catarinense – Foto: Jonathan Reinhr/Divulgação

Bioconstrução em Guaraciaba, no Oeste catarinense – Foto: Jonathan Reinhr/Divulgação

A falta de profissionais capacitados para obras como essa, aliás, impacta no custo desse tipo de construção. “Acaba sendo uma obra mais cara que o convencional, então o ideal seria deixar mais acessível”, pontua Bruno. Contudo, ele destaca que é possível fazer uma bioconstrução de forma mais barata que uma obra convencional se houver planejamento.

O engenheiro ressalta o baixo custo energético como um dos principais benefícios de uma casa de barro ou de outro material natural. “Se utilizar materiais convencionais, como concreto armado e aço, eles têm custo energético bem elevado. Em contrapartida, se conseguir usar materiais que há disponíveis na região, você consegue reduzir o impacto ambiental a menos da metade”, explica.

Bruno também destaca a qualidade de vida gerada em imóveis como esse. “Quando a terra é bem usada, traz qualidade de vida tanto na questão física e estrutural quanto para quem vive ali: a qualidade do ar é outra, a sensação térmica mais agradável”, salienta.

Para os joinvilenses, uma coisa é certa: a obra que ainda nem terminou já trouxe impactos positivos para a vida de toda a família.

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